As mães da Rural e a luta pela permanência

Caroline Feijó, Lucas Flegler, Olivia Kerhsbaumer

Entrar em uma universidade pública, para muitas pessoas, é um grande desafio. Permanecer e concluir o curso com facilidade é um privilégio que nem todos possuem. Um dos motivos que fazem com que estudantes desistam do sonho de possuir o nível superior é a maternidade. De acordo com o Censo da Educação Superior realizado em 2009, as mulheres ocupam 55,1% das vagas nas universidades públicas brasileiras e apenas metade das estudantes conseguem concluir o curso. Segundo a Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), entre as estudantes, quase 70% dos trancamentos de matrícula ocorrem por licença maternidade.

Juliana Borges, 26, mãe do Arunã

Pensando na continuação dessas mulheres na universidade, a estudante e mãe do Arunã (2), Juliana Borges (26), iniciou o Coletivo de Pais e Mães da UFRRJ (Copama) em 2014. O grupo surgiu para reivindicar o direito da permanência estudantil para pais e mães da Rural. A luta dessas estudantes com seus filhos se faz presente por meio de fóruns e de reuniões na própria instituição. Uma das questões colocadas pelo Coletivo é a moradia das mães com as crianças no alojamento estudantil. De acordo com Juliana, a perseguição é constante e já houve denúncia contra as mães ao Ministério Público.

“Diziam pelos corredores que as mães não poderiam estar nos alojamentos. Nós entramos em contato com um advogado do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e ele explicou que a Constituição garante que a criança deve estar junto à sua mãe e o Estatuto da Juventude que a jovem esteja no alojamento”, esclareceu.

O regimento dos alojamentos da Universidade, segundo Juliana, é um documento datado da época da ditadura militar e encontra-se desatualizado. Não há menção aos pais e mães universitárias que precisam do local para morar com seus filhos. “Não diz que sim, nem que não.”, comentou. Atualmente, a mãe que precisa de vaga para morar com o filho tem que insistir para resolver com a reitoria ou conseguir de maneira informal fazendo contato direto com os alojados.

“Não existe uma regulamentação. Estamos tentando diálogo com o reitor para criar algo específico e não apenas deixar como uma política da piedade quando alguém tem um problema pontual e eles buscam resolver. Nós queremos uma estrutura. Existem outras instituições que aceitam mães: tem a USP, tem a UFF…”, ressaltou.

A Universidade Federal Fluminense (UFF), dispõe de creche universitária onde são atendidas 60 crianças, cujas famílias que mantém vínculo com a instituição (professores, funcionários e alunos). Essa também é uma das demandas das mães da Rural: ter um local onde possam deixar seus filhos com segurança para que possam dar continuidade aos estudos. No momento, o que as estudantes têm é um auxílio financeiro chamado “auxílio emergencial”. O edital que regulamenta o auxílio creche está previsto para ser divulgado no próximo semestre.

Além da incompleta política assistencialista e da precária estrutura da universidade, as estudantes-mães sofrem forte preconceito no campus, vindo tanto de professores e funcionários, quanto de outros estudantes. Segundo a estudante e mãe do Francisco (2), Cintia Campos (33), o direito ao espaço universitário fica cerceado quando as outras pessoas anulam o fato de que uma mãe também pode ser uma universitária.

“A minha diferença pra qualquer outra estudante que não tem filho, é que eu tenho o Francisco, e isso não tira o meu direito ao espaço da universidade”, determinou.

Para ela, tanto as mulheres que engravidam no decorrer da graduação quanto aquelas que já entram sendo mães, desistem do caminho a ser percorrido por conta do forte preconceito que envolve a questão. O ambiente torna-se um fator de pressão psicológica e de diversas formas de violência quando essas mulheres se veem oprimidas pelas pessoas presentes no ambiente acadêmico.

Cristiane Alves, 30, mãe do Miguel

Segundo a estudante e mãe do Miguel (1), Cristiane Alves (30), é quase impossível passar despercebida tendo um filho na Rural. Ela se sente observada em todos os lugares.

“São olhares no bandejão, são olhares quando estou indo para a aula… Eu tenho que dar conta de muito mais, porque todo mundo presta atenção na minha nota, no meu desenvolvimento, nas minhas coisas. Eu tenho que ser a supermulher!”, desabafou.

Cristiane mora com seu filho na cabeceira de um dos prédios do alojamento. As cabeceiras são quartos individuais que têm banheiro e cozinha dentro. Geralmente elas são passadas entre os próprios alunos e configuram o que chamam de “herança”. Embora exista critério para selecionar quem morará nos quartos, na prática não funciona corretamente.

Em busca da empatia

O que ocorre na universidade é um reflexo da sociedade. Julgar a vida dessas jovens estudantes é uma prática reproduzida automaticamente até mesmo entre as próprias mulheres. Na visão de Cintia, pensar que, em alguma instância, as mulheres podem somar na luta de outras, é encontrar um ponto de apoio no meio de tanta carga.

“Uma coisa que o Coletivo também quer é sensibilizar as outras meninas. Precisamos estar ali dentro, mas ainda não somos aceitas. Não existe essa sensibilidade entre as mulheres. Isso é uma luta, e é algo que eu desejo para o futuro: aceitação. A gente tem esse direito, porque aquele espaço também é nosso.”, disse.

O problema da falta de empatia vem também dos funcionários e professores da universidade. Em alguns casos, não há tolerância com as crianças em sala de aula e com a flexibilidade de presença nas datas das provas. Geralmente as estudantes ficam à mercê do bom senso das pessoas, pois não há regras claras que contemplem esses casos.

Em certa situação, Cintia conta que precisou da sensibilidade do professor para realizar segunda chamada de uma prova aplicada no dia em que seu filho, com apenas seis meses na época, estava doente. Para a universidade, o atestado médico do bebê não serviria para abonar a falta da mãe.

“Quando cheguei ao departamento, eles falaram que eu não ia conseguir fazer a prova porque o atestado não era meu. Ficaram com o documento, mas foi indeferido. O professor me chamou e falou que daríamos um jeito. Ele me deixou fazer segunda chamada, mas foi algo informal”.

O papel do Copama

O Coletivo vem ajudando a construir um cenário de otimismo entre as mães da Rural. Das lutas pela permanência ao companheirismo entre as mulheres, o grupo se fortalece à medida em que as jovens se reconhecem e somam ao movimento de resistência. As estudantes unidas já obtiveram algumas conquistas como quatro quartos do alojamento feminino F6, a entrada das crianças no restaurante universitário e uma lista de espera para que as mães ocupem as cabeceiras.

Para além das vitórias objetivas, há também os ganhos afetivos. Cristiane diz ter sofrido bastante preconceito e pressão psicológica no alojamento onde mora desde o nascimento do seu filho Miguel, mas encontrou forças através da união e da história das companheiras do Copama.

“Eu vejo que é gritante a violência contra a mulher. O tempo todo usam formas de oprimir, de ofender. Sendo bem sincera: se eu não conhecesse as meninas e o Copama, eu não aguentaria essa pressão. Vendo outras mães passando por isso, consigo perceber que não é só comigo e ter um apoio. Sem esse apoio eu não estaria na universidade”, desabafou.

É através dessa união que as alunas conseguem manter a cabeça erguida para dar continuidade aos estudos e às reivindicações enquanto mães. Até que se concretize o projeto da creche universitária, elas dialogam com a reitoria em busca de melhorias para permanência. Segundo Cintia, Cristiane e Juliana, uma proposta do atual reitor da UFRRJ, Ricardo Berbara, é transformar gradativamente o F6 em alojamento familiar.

“Eles não direcionariam nenhuma estudante que não fosse mãe para lá, e as que já estiverem, permanecerão. Essa é a proposta”, explicou Cintia.

Mãe de primeira viagem

Tainara Santos,  25, mãe de Maria Helena

Tainara Santos, estudante do sétimo período de Ciências Sociais, descobriu que estava grávida dois dias antes de Maria Helena nascer. O que até então havia sido diagnosticado como “problema de estômago”, tinha forma, sexo e carinha de menina devido a uma gravidez… “Foi tudo no improviso, ela não tinha nem roupa quando nasceu. Tive que aprender a ser mãe na marra”, conta.

A surpresa foi geral. Ela considera que a ajuda que recebe tanto das amigas com quem divide casa, quanto da família e alguns professores é imprescindível para sua permanência da universidade.

A recente mamãe não pode aproveitar o resguardo e, um mês após o nascimento de Maria Helena, voltou da cidade natal, Itaboraí (RJ), para Seropédica. “Sou bolsista do PIBID, se eu entrasse em exercício domiciliar minha bolsa seria suspensa, então optei por voltar, com a cara e a coragem” relembra.

Com o retorno, se deparou com dificuldades estruturais na UFRRJ. Ela considera que a universidade é um dos muitos espaços públicos que não pensa nas mães e seus filhos. Falta de transporte para locomoção entre os institutos, fraldário nos banheiros e creche universitária são alguns dos principais assuntos na pauta de reivindicações que Tainara considera importantes para a construção de um local que abriga diferentes estudantes, como é o caso da Rural.

“Depois de ter a Maria Helena, reparei que grande parte dos lugares não tem o mínimo, que é um fraldário. Um absurdo que aqui, com a quantidade de alunos que tem, não exista uma creche, que é algo que tanto precisamos”, comenta.

Debaixo de chuva e de sol fica ainda mais complicado se locomover de um local a outro com um bebê de dois meses nos braços. Tainara confessa que, neste período, deu sorte, já que tem aula em apenas dois institutos. Mas, mesmo assim, conta constantemente com a compreensão dos professores quando não consegue estar em sala de aula. Maria Helena acompanha a mãe em todas as aulas.

Para além dos muros da sala de aula, uma de suas professoras passou uma lista entre o corpo docente para arrecadação de produtos para a bebê. “Ela chegou com duas bolsas enormes no hospital, com roupas da filha dela e fraldas. Além disso, sempre me pergunta se estou precisando de alguma coisa”.

Entretanto, ela conta que ainda se depara com a falta de consciência de alguns poucos professores, que têm dificuldades em aceitar as faltas da estudante. “Não são todos que pensam que eu tenho uma filha. Lógico que filho não é doença, que te impossibilite, mas te restringe a determinadas coisas”. Ela ainda diz que precisa contar com os imprevistos: “Filho não é uma coisa que você pode contar. Em um dia tá bem, mas no outro pode estar mal”.

Pela pouca idade, Maria Helena ainda é completamente dependente de Tainara. A bebê exige atenção constante da mãe, que confessa a dificuldade em se dividir entre os estudos e a maternidade. Os trabalhos da faculdade são feitos geralmente de madrugada, enquanto a filha está dormindo. “É dar de mamar com uma mão e digitar com a outra”, conta.

Segundo Tainara, o que mais ajudou a garantir sua permanência na universidade – e em meio às diversas dificuldades estruturais que a Rural impõe às mães – foi o apoio da família. Ela conta que quando descobriu a gravidez, sua mãe perguntou o que ela faria a partir dali. “Respondi que não sabia, mas que não iria parar, essa não era uma opção”.

Durante a gravidez

Uma questão paralela que também transpassa a questão da situação dos pais e mães da Rural é a relação da instituição com as alunas gestantes. A aluna do último período de Ciências Sociais, Marielle Mattos está em sua 24º semana de gravidez. Ela relata a inexistência de políticas que contemplem os estudantes que estão vivendo esse momento. A falta de sensibilidade e a inércia de práticas com relação a esse tipo de questão foram destacados. “O espaço da universidade e do mundo do trabalho é todo constituído para pessoas que não tenham filhos.”, completa Marielle.

Pesquisando o perfil da Universidade historicamente podemos observar que o ambiente foi pensado para abrigar homens. A figura da mulher dentro do ambiente acadêmico se configura de forma contemporânea. Essa progressão social só não foi sendo atualizada nas estruturas burocráticas da instituição. De acordo com Marielle, o que se vê são relatos de mulheres que tiveram que recorrer à assistência social e/ou políticas dentro da universidade e que foram tratadas como se estivessem ocupando um espaço que não é mais delas.

Ainda é evidenciada a complexidade do trâmite para a concessão do exercício domiciliar. A política não se atenta à posição de uma mulher gestante, pois rege apenas um mês de afastamento das discentes esperando seu retorno com desempenho normal sem considerar a fase de vulnerabilidade e adaptação pós-parto, nem os cuidados clínicos (vacinação, acompanhamento pediátrico, entre outros) com a criança recém-nascida.

Questionada sobre um possível apoio recebido pelo curso, Marielle destaca a humanização dos docentes e discentes para a criação de uma rede auxiliadora que pensa a permanência de forma coletiva com os alunos que vivem a maternidade e paternidade. A gestante aponta compreensão dos colegas de Ciências Sociais para com a causa e a atenção dos professores em dinamizar as atividades da sala de aula para os alunos que estão englobados nessa situação especial. “Pelo que posso perceber, é preciso apontar que o meu curso é uma exceção e não a regra.” enfatiza a entrevistada.

Há uma preocupação em manter a relação graduação/maternidade saudável de acordo com as necessidades que as mães precisam nas áreas de alimentação, moradia estudantil, ampliação e reformulação das atividades domiciliares. Além disso, a implementação de assistência psicológica e social para estudantes que estão na condição de maternidade e para os seus filhos, também foram colocados pela estudante.

Insegurança que ronda a vida das gestantes e mães dentro do ambiente acadêmico é de ter a graduação impactada pela ausência de amparo das políticas estabelecidas no regimento da Universidade. “Como estou cursando o último período da graduação, não estou com inseguranças em relação a ela, mas imagino como é difícil para as gestantes que continuaram na graduação e terão que lidar com a falta de estrutura e de sensibilidade da universidade” disse.

 

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